12.2.08

review: sweeney todd

* Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, 2007
Tim Burton

Os aspectos positivos são bons o bastante para fazer com que se goste desse filme. Tim Burton cria um ambiente assustadoramente macabro numa Londres mais fria do que de costume. Criação de cenários assim é uma característica de Tim Burton, e novamente ele faz com muita qualidade. Conhecemos o personagen Sweeney Todd, que ficou 15 anos na prisão e volta um tanto diferente. Volta querendo se vingar daqueles que o colocaram lá injustamente. Mas não é qualquer vingança, é uma do tipo: "Vou fazer o barbear mais rente da sua vida". Taí outra coisa boa do filme, o sangue. MUITO SANGUE. Digamos que Tim Burton não desvia a câmera em nenhum momento, e isso proporciona cenas dignas de um gore, mas com uma beleza impressionante. Até tem um ou outro número musical contagiante, como aquele do duelo entre os dois barbeiros, o que pra mim é o ponto alto do filme.

Pois é, ter um ou outro número musical bom num filme musical não é a a melhor coisa do mundo. Nem acho que TODOS os atores cantaram mal como andam dizendo, Johnny Depp e Helena Bonham Carter se saem bem nas cantorias, o problema é que elas não empolgam muito, não conseguem fazer com que a gente se sinta no clima. Fiquei com a impressão que esse filme não foi planejado para ser um musical, e que Tim Burton quis apenas aparecer... posso estar errado, mas enfim.

Outra coisa que atrapalha muito é que falta alma para o filme. Tim Burton provavelmente se contagiou com a frieza da fotografia e a transmitiu pros personagens e pra história em si. O final era para ser catártico, uma tragédia grega a lá Sófocles, mas não consegui me importar muito, tudo porque faltou envolvimento.

Um bom filme, de fato. Não mais do que isso.




10.2.08

reviews: gattaca

* Gattaca - A Experiência Genética, 1997
Andrew Niccol



Eu ainda me lembro de certas coisas que estudei no cursinho, uma delas é o DNA e seus componentes. Para resumir, o DNA é formado pelos nucleotídeos e esses possuem bases nitrogenadas próprias. Temos a Adenina, Timina, Citosina e Guanina. Para simplificar os estudos na genética elas são chamadas pelas letras iniciais. Fica fácil perceber que o nome do filme é uma palavra feita apenas com essas letras, o que já mostra o tom científico que ele possui.


Gattaca nos apresenta um mundo interessante e perturbador. Num futuro não muito distante, os nascimentos por parto natural não são mais considerados naturais. Os chamados "filhos de Deus" se tornam cada vez menos comuns, dando lugar as crianças geradas por uma fertilização artificial que tem a capacidade de criar um ser humano sem a maioria dos problemas que nos acometem, como calvice, miopia e até mesmo coisas mais sérias, como propensão a doenças fatais. Os pais podem escolher como serão seus filhos, se serão morenos ou loiros, com olhos verdes ou azuis e assim por diante.

Desde o nascimento já sabemos as habilidades que uma pessoa pode vir a ter, então se ela tem um bom código genético ela vai se dar bem na vida, se o seu sangue for ruim, será um plebeu, será ralé.

Nem no futuro escaparemos do preconceito e da discrminação, e no mundo de Gattaca quem é o responsável por isso é o sangue. A raça, a cor, a nacionalidade não importam mais, e sim as combinações das bases nitrogenadas de cada um.


Vincent é um desses cujo nascimento foi deixado ao acaso, e não manipulado genéticamente. E por azar, o seu sangue mostra que o seu futuro não é nada promissor. Miopia, problemas cardiacos... são alguns dos seus problemas. Isso o coloca na casta dos discriminados, que não podem esperar mais do futuro do que limpar a sujeira dos outros, ou algo assim.

Só que Vincent sempre sonhou em ser astronauta, para poder ver de perto das estrelas e ele vai fazer de tudo para driblar a genética.


Posso dizer que curto muito esse filme. Já vi várias vezes e nunca me canso. Ele tem um ritmo um tanto calmo, mas que jamais parece arrastado, pois além de ter uma direção competente, a narração de Ethan Hawke sempre tem algo interessante a dizer. É muito bom ver um filme que apresenta a história de alguém que vai lutar contra tudo e contra todos para alcançar o seus sonhos, mesmo eles parecendo impossiveis de serem realizados.

E claro... não é sempre que podemos ver na tela algo que torne acessível um assunto bem complexo como a genética e suas possibilidades.

Nota: 81

9.2.08

in the valley of elah.

* No Vale das Sombras, 2007
Paul Haggis



Não esperava muita coisa do filme, o que foi bom, pois acabei gostando bastante.

Apesar da guerra no Iraque ser algo importante em diversos aspectos, este assunto já estava um tanto saturado para mim, principalmente devido aos vários filmes recentes que abordam o conflito e também por já sabermos que se trata de uma guerra travada basicamente para que os EUA continuem sendo os EUA.

O interessante é que o filme tem um roteiro no qual a guerra do Iraque é extremamente importante, já que todos os acontecimentos se originam de fatos ocorridos nela, porém ela praticamente não é mostrada, mesmo porque 98% da história se passa nos Estados Unidos.

Logo no início somos apresentados a Hank, um ex-militar obsessivo por organização, que acaba de receber uma ligação do exército, pela qual é informado que o seu filho está AWOL(ausente sem licença) e nos Estados Unidos. Ele estranha, pois se o seu filho estivesse voltado ele saberia. Hank sai em busca do rapaz e aí que as coisas começam a acontecer.

É engraçado que desde o começo pensamos que se trata de um filme excessivamente patriota, mas isso é apenas o reflexo do personagem principal, que aos poucos vai descobrindo que as coisas não funcionam da forma como ele acha que deveriam funcionar.

Há um tom racista em alguns personagens, até mesmo em Hank, que ao xingar um desafeto, prefere se focar no fato dele ser mexicano. É a forma que Paul Haggis escolhe para nos mostrar todo o preconceito existente em seu pais, algo que ele já tinha trabalhado com mais profundidade em Crash.

As questões relativas aos procedimentos dos soldados, tanto no Iraque, como em qualquer outro lugar, são verdadeiras e perturbadoras. Geralmente, eles acabam tendo que fazer coisas que trazem um remorso praticamente eterno e as pessoas em geral acabam os tratando como imbecís por seguir tais ordens, mas como nos procederiamos se tivessemos no lugar deles?

Para finalizar, Tommy Lee Jones parece vinho. A experiência tem sido boa para ele, assim como é para mestres como Clint Eastwood. Ele consegue se destacar interpretando um personagem normal. Quer dizer, quem se destaca é realmente o ator e não a criação do roteirista. Não é dificil chamar a atenção interpretando algo como Truman Capote, Jack Sparrow, e etc, que são extremamente peculiares.

Eu estava gostando bastante do filme, mas a cena final me fez gostar mais ainda. Foi uma forte critica, apresentada de uma maneira inteligente, fazendo uma oposição com uma cena bem do começo do filme, genial.

Nota: 87

8.2.08

30 days of night.

* 30 Dias de Noite, 2007
David Slade

Se o filme fosse tão legal quanto o seu cartaz teriamos uma obra de respeito, mas não é nada disso o que acontece. Mas vou fazer justiça. A premissa é bem interessante e até mesmo inteligente. Existe um lugar melhor para os vampiros do que uma cidade onde o sol desaparece por 1 mês? Essa cidade fica no Alaska, e ela fica bem isolada do resto da civilização. Esse é o insight do filme, pena que o resto não faz juz a essa boa idéia. O diretor até demonstra um pouco de competência ao explorar bem a escuridão do lugar para nos transmitir um certo medo, e ele também consegue fazer desses vampiros seres ameaçadores de verdade, mas acredito que as coisas boas acabam por aqui.

Mas o fato é que esse filme é desnecessário, pois não acrescenta nada em termos de vampiros no cinema, além do fato de ser ruim, diga-se de passagem. Há uma avalanche de clichês, principalmente devido aos personagens. Temos um grupo de pessoas que consegue ir para um local aparentemente seguro e aí teremos um cidadão nervosinho que vai atrapalhar os outros, vamos ter um altruista e um cara misterioso.

A história se desenrola de uma forma parecida com um video-clip, são tantos cortes que fica dificil de conta-los, fazendo tudo perder o charme. Na maioria das vezes a trilha sonora fica totalmente fora de sintonia com o que está acontecendo, sendo até algo patético ocasionalmente.

E como todo filme feito para arrecadar grana temos um subtrama romântica, que não preciso dizer que não tem o menor sentido de existir.

No mais, um ou outro gore interessante e o final... que é praticamente um insulto a inteligência do público.

6.2.08

m

* M, 1931
Fritz Lang

Já assisti a vários clássicos e na maioria das vezes essa experiência acaba sendo frustrante. Quer dizer, frustrante é uma palavra forte, o que acontece é que eu vou com uma expectativa muito grande e acabo me decepcionando. Algo bem corriqueiro na nossa vida, náo é? Não só em termos de cinema. Geralmente os filmes clássicos sofrem dos mesmos problemas, como o excesso de closes, poucas tomadas em plano aberto, rarrisimas inovações de fotografia, além de vários clichês e de roteiros um tanto formulaicos. Claro que nem sempre é assim, existem os clássicos que realmente devem ser valorizados, são vários os exemplos e um deles é M, do austriaco Fritz Lang.

Gostei da maior parte do filme, mas não o suficiente para cultua-lo, para coloca-lo na minha lista dos filmes preferidos ou algo assim. Mas é um filme digno de nota e que merece algumas reflexões a respeito do assunto que ele apresenta e desenvolve.

Esse M do titulo vem da palavrar MORDER, que significa assassino em alemão. Aqui temos um serial-killer cujas vítimas são crianças e ele é como um fantasma. Ninguém vê, até que faça uma próxima vítima. É interessante a forma como Fritz Lang nos mostra todo o caos que atinge a cidade quando todos se dão conta do perigo que está a espreita. Os cidadãos ficam em pânico ao imaginar que suas crianças estão a mercê de um asassino cruel e isso gera vários problemas. Qualquer homem andando com uma criança é digno de suspeitas. Há uma atmosfera de medo que foi muito bem captada pelo diretor.

Somos apresentados a uma garotinha e logo ela tem o seu encontro com M. Fritz Lang nos informa que a garota não voltará mais, não mostrando uma violência grafica sim com uma sutileza quase poética, quando nos coloca na casa da garota e vemos sua mãe preocupado com o seu atraso e o seu lugar vazio à mesa, juntamente com os pratos e talheres que jamais serão usados novamente. Outra forma interessante de dizer que a personagem não iria mais voltar é quando podemos observar o balão que ela carregava preso num poste de luz, abandonado, sem rumo. É de arrepiar.

O ator Peter Lorre, que faz o serial-killer, obviamente tem qualidade, mas acredito que ele errou a mão, principalmente no monolo final. Ele foi caricatural demais, achando que esbugalhar os olhos e falar estridentemente fosse suficiente para causar impacto. Para mim não funcionou.

O filme lança uma discussão inteligente quando M diz que ele mata as crianças por um tipo de impulso e não porque ele realmente quisesse fazer o que faz. Eu sei que mulheres quando estão em TPM, com um nivel hormonal muito desrregulado, acabam sendo inocentadas de certos crimes. Mas no caso do filme é dificil julga-lo. Como vamos saber se ele está falando a verdade? E se estiver, como ficam os pais das crianças mortas ao saber que o assassino logo estará nas ruas novamente, caso seja alegado um tipo de loucura momentânena? Não como a lei cuida desse tipo de caso hoje em dia, mas é algo bem delicado.

Ah, sim, Fritz Lang realizou uma obra atemporal, principalmente em se tratando do estilo de filma-la. Ele é ousado na maioria das cenas, utilizando ângulos que me impressionaram bastante, justamente por "M" ser tão antigo. A maneira como a narrativa segue pode parecer confusa, pois são muitos personagens, mas nada que atrapalhe. Fritz Lang realmente estava a frente do seu tempo, esse filme é uma das provas.


Nota: 74

4.2.08

4 luni, 3 saptamani si 2 zile.

* 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, 2007
Cristian Mungiu


Se por um lado eu queria que esse filme continuasse por horas a fio, confesso que senti um certo alivio quando ele chegou ao fim. O filme é foda em todos os sentidos, o problema é que ele funciona basicamente como um soco na cara, bem forte, por sinal. O enredo dele é bem simples. Há uma mulher que decide fazer um aborto, há uma amiga que resolve ajudar e há uma pessoa para fazer o serviço. Apesar da história não parecer tão impactante, a maneira como Cristian Mungiu resolve conta-la funciona exemplarmente. Não sei se o objetivo dele era fazer um filme anti-aborto, mas a mensagem que fica a respeito de tal atitude é a pior possível. Eu sempre fui a favor do aborto, desde que feito com cuidado e por motivos consideráveis. Agora tive que parar para pensar a respeito. Isso é um dos pontos positivos do filme, ele te faz pensar, e muito.

Só para contextualizar um pouco, as ações se dão numa Romênia do final da década de 80, quando ela ainda vivia no regime comunista. Foi um péssimo periodo para o pais e ficamos ciente disso apenas vendo as pessoas com dificuldades para conseguir coisas que parecem banais, como um cigarro ou um sabonete de uma marca específica. A fotografia fria como o gelo também colabora para que tenhamos a noção da dificuldade em viver num regime de tal escassez.

O diretor acerta em acompanhar as ações dos personagens nos minimos detalhes. Ele não faz isso como um exercicio de estilo, a la Gus Van Saint, que adora filmar os atores caminhando, sem um objetivo definido, a não ser realizar algo esteticamente bem feito. Aqui, o objetivo de Cristian Mungiu a proceder dessa forma é dar vida aos personagens, o que ele faz com sucesso.

As cenas sem cortes também não são maneiras de dizer: Olhem, eu sou foda. Não. É a forma que ele encontrou de tornar tudo mais real. Parece um Big Brother. Como se alguém conseguisse filmar a vida de outras pessoas sem que elas soubessem. Os dialogos ajudam muito também, palmas para os roteiristas.

É um dos filmes mais díficeis que vi nos últimos dias. Pois ele trata de um assunto polêmico da forma mais arrebatadora possível: Conduzindo a história de uma forma extremamente realista.

2.2.08

i´m not there.

* I´m Not There, 2007
Todd Haynes


Existem três tipos de pessoas que podem ver esse I´m Not There: Os que não sabem nada sobre Bob Dylan, os que apenas conhecem suas músicas e os que conhecem tanto suas músicas como sua história de vida. Cada tipo de público vai gostar do filme de uma maneira, ou até mesmo não gostar. É um filme de Dylan feito para fãs de Dylan ou para quem não tem nada contra experimentalismos no cinema.

Como é dito no ínicio, o filme tem a intenção de mostrar as diversas facetas de Dylan. Ele foge daquelas biografias convencionais de músicos e nos apresenta uma maneira bem original de falar sobre um objeto de estudo. Aqui vários atores interpretam vários Dylans em vários momentos diferentes. Cada periodo possui uma fotografia própria, o que colabora para que possamos ver as mutações do cantor, tanto físicas, quanto em matéria de atitudes. Cate Blanchett rouba a cena, mas Christian Bale e o já saudoso Heth Ledger merecem cumprimentos.

Não temos um filme com inicio, meio e fim. Nem mesmo um climax. Isso pode desagradar alguns menos abertos a novas experiências, mas acredito que tal decisão foi importante para o que o filme se propõe a ser: Uma porta de entrada para os mundos de Dylan.´

É desnecessário falar que a trilha sonora é um dos pontos fortes, com músicas famosas e outras nem tanto. Eu me incluo no público que conhece várias de suas músicas e não muito sobre sua vida, o que me fez gostar bastante do que vi, mas não o suficiente para ir recomendando o filme para todo mundo que conheço.

Nota: 76